quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Faleceu João Monteiro de Barros Filho, fundador da RedeVida de Televisão

 



Faleceu, hoje, 10 de setembro, em Barretos (SP), aos 87 anos, o jornalista João Monteiro de Barros Filho, fundador da Rede Vida de Televisão.

O seu sepultamento será ao meio dia, dia 11.

"A partida de João Monteiro de Barros Filho representa uma grande perda para Barretos, para a comunicação brasileira e, de maneira muito particular, para a Igreja Católica, à qual esteve ligado durante décadas por laços de amizade, fé, colaboração e serviço", expressou, em nota, a Diocese de Barretos.

O bispo de Barretos, Dom Milton Kenan Júnior, falou de João Monteiro:

“Falar de sua história é recordar também muitos capítulos da história da Diocese de Barretos. Sua amizade com nossos bispos, sua colaboração com a Cidade de Maria, sua dedicação às iniciativas em favor da Igreja e, sobretudo, sua compreensão da comunicação como instrumento de evangelização."

Em 1992, Monteiro fundou o Instituto Brasileiro de Comunicação Cristã (INBRAC) e, em 20 de junho 1995, com o apoio da Igreja Católica, fundou a Rede Vida de Televisão, com sede em São José do Rio Preto (SP).


Nota de Pesar da CNBB

 

A Presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) manifesta seu profundo pesar pelo falecimento de João Monteiro de Barros Filho, fundador da Rede Vida de Televisão, e expressa sua solidariedade aos familiares, amigos, colaboradores e a todos os que fazem parte desta importante emissora católica.

João Monteiro de Barros Filho foi um grande homem da comunicação, cuja visão, dedicação e compromisso contribuíram de maneira significativa para a história da comunicação católica no Brasil. Por meio da Rede Vida, deixou um importante legado a serviço da evangelização, da promoção da vida, da verdade e dos valores do Evangelho.

Sua trajetória recorda-nos a nobre missão dos meios de comunicação de promover o encontro, fortalecer a esperança e contribuir para a construção de uma sociedade mais fraterna e solidária.

Neste momento de dor, a Presidência da CNBB eleva suas orações a Deus pelo descanso eterno de João Monteiro de Barros Filho e pede ao Senhor que conforte seus familiares e todos os que sofrem com sua partida.

Que Nossa Senhora, Mãe da Consolação, acompanhe a todos com sua ternura e interceda para que a fé e a esperança sejam fortalecidas neste momento de despedida.

Em Cristo,

Dom Jaime Cardeal Spengler
Arcebispo de Porto Alegre (RS)
Presidente da CNBB

Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo de Goiânia (GO)
Primeiro Vice-Presidente da CNBB

Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa
Arcebispo de Olinda e Recife (PE)
Segundo Vice-Presidente da CNBB

Dom Ricardo Hoepers
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Brasília (DF)
Secretário-geral da CNBB



Nota da AESP

A Associação das Emissoras de Rádio e Televisão do Estado de São Paulo (AESP) recebe com profunda tristeza a notícia do falecimento do jornalista e empresário João Monteiro de Barros Filho, fundador da RedeVida de Televisão e um dos grandes nomes da história da radiodifusão paulista e brasileira.

Nascido em Barretos, em 5 de novembro de 1936, João Monteiro construiu sua vida dentro da comunicação. Começou no rádio, atuando como comentarista esportivo e na área comercial. Foi gerente da Rádio Piratininga e, com espírito empreendedor, passou a adquirir emissoras e a construir o grupo de comunicação da família Monteiro de Barros.

Sua visão o levou também ao jornalismo impresso, com a criação de O Diário de Barretos. Mais tarde, movido por sua profunda fé católica e pela convicção no poder transformador da comunicação, trabalhou para tirar do papel um projeto ainda mais ambicioso: uma televisão de inspiração cristã e alcance nacional.

Com a criação do Instituto Brasileiro de Comunicação Cristã (INBRAC), em 1992, abriu-se o caminho para o nascimento da RedeVida de Televisão, que se tornaria uma rede nacional e uma das marcas mais reconhecidas da comunicação de inspiração cristã no Brasil.

João Monteiro pertence a uma geração de radiodifusores que não apenas administrou emissoras: ajudou a construir a própria história da radiodifusão brasileira. Do rádio do interior paulista à televisão nacional, sua trajetória foi marcada por empreendedorismo, fé, perseverança e uma vida dedicada à comunicação.

Para a AESP, sua partida tem um significado ainda mais próximo. A relação da família Monteiro de Barros com a Associação atravessa gerações. João é pai de João Monteiro de Barros Neto, vice-presidente da AESP no período de 2015 a 2020, e avô de Marcelo Monteiro de Barros, atual vice-presidente da entidade. Uma história familiar que se confunde, em muitos momentos, com a própria trajetória da radiodifusão paulista.

A AESP, em nome de sua diretoria e de todas as emissoras associadas, rende sua homenagem à história de João Monteiro de Barros Filho e se solidariza com seus familiares, amigos, colaboradores e com toda a família RedeVida neste momento de despedida.

João Monteiro deixa a vida, mas não deixa o ar. Sua obra, seus valores e seu legado permanecem vivos na comunicação brasileira e nas gerações que seguem sua história.

                                    Nota de Irmã Matilde, fsp

Hoje, a família REDEVIDA se despede, com profunda tristeza e imensa gratidão, de seu fundador, Sr. João Monteiro de Barros Filho.                   

Há pessoas que deixam sua marca por onde passam. Outras vão além: ajudam a construir caminhos que permanecem vivos e transformam a história de tantas pessoas.

Foi assim com o Sr. João Monteiro.

Seu sonho, sua coragem e sua dedicação deram origem a uma missão que, ao longo dos anos, chegou a milhões de lares e passou a fazer parte da vida de tantas famílias.

Hoje nos despedimos com o coração apertado, mas também com a certeza de que sua história continuará presente em cada passo da REDEVIDA, em cada pessoa que faz parte desta missão e em tudo aquilo que ainda construiremos.

Obrigado, Sr. João Monteiro, por acreditar em um sonho e por nos deixar um legado tão grande.

Neste momento de dor e saudade, nos unimos em oração por sua alma e pedimos a Deus que conforte o coração de seus familiares, amigos e de todos aqueles que tiveram o privilégio de conhecê-lo.

Seu legado permanece.

Sua história permanece.

Sua presença permanecerá para sempre na memória e no coração da família REDEVIDA.

Descanse em paz.

                                

 SIGNIS BRASIL

NOTA DE PESAR
SIGNIS Brasil lamenta o falecimento de João Monteiro de Barros Filho, fundador da Rede Vida de Televisão.
A SIGNIS Brasil (Associação Católica de Comunicação) manifesta seu profundo pesar e solidariedade pelo falecimento do jornalista, radialista e empresário João Monteiro de Barros Filho, ocorrido nesta quinta-feira, 10 de setembro, aos 87 anos, em Barretos (SP).
Pioneiro e visionário na comunicação católica no país, o Sr. João Monteiro dedicou sua vida e seus dons à promoção dos valores cristãos e ao anúncio do Evangelho. Em 1995, por meio do Instituto Brasileiro de Comunicação Cristã (IBRAC), concretizou o corajoso sonho de fundar a Rede Vida de Televisão — emissora associada da SIGNIS Brasil —, criando um dos mais importantes e abrangentes instrumentos de evangelização da Igreja no Brasil, presente em milhões de lares e em unidade com a comunicação católica.
Sua trajetória marcada pelo compromisso com a verdade, pelo amor à Igreja e pela dedicação ao desenvolvimento comunitário deixa um legado inestimável para o jornalismo, para a radiodifusão nacional e para as ações de comunicação voltadas a Evangelização.
Nos unimos em oração com a família REDEVIDA, por seus filhos, Luiz Antonio Monteiro de Barros e João Monteiro de Barros Neto, netos, bisnetos, demais familiares e amigos. Suplicamos ao Senhor da Vida que, em Sua infinita misericórdia, o acolha no Reino definitivo e traga conforto aos corações de todos os que partilharam de sua missão.
A fé em Cristo Ressuscitado nos assegura que a vida não termina, mas se transforma.
Dai-lhe, Senhor, o descanso eterno, e que a luz perpetua o ilumine.

SIGNIS Brasil
Associação Católica de Comunicação

 

terça-feira, 17 de março de 2026

ECA DIGITAL ENTRA EM VIGOR, HOJE, 17 DE MARÇO

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O ECA Digital (Lei 15.211/2025), em vigor em 17 março de 2026, é uma atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente. Estabelece regras rígidas de segurança para plataformas digitais. Impõe responsabilidades a redes sociais e jogos para proteger menores de 18 anos contra conteúdos impróprios, cyberbullying, exploração de dados e aliciamento, com foco em verificação de idade e controle parental.

O texto, que ficou conhecido como ECA Digital ou Lei Felca*, foi sancionado pelo presidente Lula em setembro 2025 e tinha prazo de seis meses para começar a vigorar.

As normas passam a valer para todo produto ou serviço digital que possa ser acessado por crianças ou adolescentes, independentemente do setor ou modelo de negócio.

O ECA DIGITAL estabelece as seguintes regras:

Verificação de Idade: As plataformas devem implementar sistemas de verificação eficazes, indo além da simples autodeclaração, para restringir o acesso de crianças a conteúdos inadequados.
  • Exige que redes sociais ofereçam versões sem conteúdos proibidos ou publicidade direcionada e que contas de menores de 16 anos sejam vinculadas às de seus responsáveis.
  • Determina que marketplaces e aplicativos de entrega de bebidas alcoólicas, cigarros e produtos eróticos verifiquem a idade no cadastro ou no momento da compra e bloqueiem automaticamente o acesso de menores a itens proibidos.
  • Impõe que plataformas de apostas impeçam o cadastro e o acesso de crianças e adolescentes.
  • Obriga buscadores a ocultar ou sinalizar conteúdos sexualmente explícitos e a exigir verificação de idade para o desbloqueio.
  • Exige que provedores de conteúdo pornográfico adotem verificação de idade, proíbam a autodeclaração e removam contas identificadas como pertencentes a menores.
  • Determina que jogos eletrônicos com caixas de recompensa bloqueiem o acesso de menores ou ofereçam versões sem essa funcionalidade.
  • Estabelece que serviços de streaming cumpram a classificação indicativa e disponibilizem perfis infantis, mecanismos de bloqueio e ferramentas de controle parental.
  • Plataformas que têm mais de 1 milhão de crianças e adolescentes cadastrados devem enviar relatórios mostrando como apuraram denúncias e quais medidas de moderação de conteúdo foram adotadas.

*Lei Felca

São Paulo (SP), 13/08/2025 - Youtuber e influenciador digital Felipe Bressanim Pereira (Felca)  participa do Influent Summit 2025. Foto: Paulo Pinto/Agência
Vídeo do influenciador Felca trouxe o tema adultização para o debate e motivou aprovação do ECA Digital- Paulo Pinto/Agência Brasil

A aprovação do ECA Digital ocorreu após o influenciador Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, publicar um vídeo, em agosto do ano passado, no qual denunciou perfis em redes sociais que usavam crianças e adolescentes para promover a sexualização de menores de 18 anos.

O vídeo de uma hora de duração alerta para os riscos de expor conteúdos impróprios para o público infanto-juvenil nas redes sociais e como os influenciadores lucravam com isso. Informalmente, o ECA Digital tem sido chamado também de Lei Felca.

A lei 15.211/2025 proíbe a monetização ou impulsionamento de qualquer conteúdo que retrate menores de forma sexualizada ou com linguagem adulta.


sábado, 24 de janeiro de 2026

Mensagem do 60º Dia Mundial das Comunicações (17 de maio)

 



MENSAGEM DE SUA SANTIDADE O PAPA LEÃO XIV

PARA O 60º DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES

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Preservar as vozes e os rostos humanos

Queridos irmãos e irmãs!

O rosto e a voz são características únicas e distintivas de cada pessoa; manifestam sua identidade irrepetível e são o elemento constitutivo de todo encontro. Os antigos sabiam disso muito bem. Assim, para definir a pessoa humana, os antigos gregos usavam a palavra "rosto" ( prósōpon ), que etimologicamente indica aquilo que está diante do olhar, o lugar da presença e do relacionamento. O termo latino persona (de per-sonare ), por sua vez, inclui o som: não qualquer som, mas a voz inconfundível de alguém.

O rosto e a voz são sagrados. Foram-nos dados por Deus, que nos criou à sua imagem e semelhança, chamando-nos à vida com a Palavra que ele mesmo nos falou; uma Palavra que primeiro ressoou ao longo dos séculos nas vozes dos profetas, e depois se fez carne na plenitude dos tempos. Esta Palavra — esta comunicação que Deus faz de si mesmo — também nós pudemos ouvir e ver diretamente (cf. 1 Jo 1,1-3), porque se revelou na voz e no rosto de Jesus, o Filho de Deus.

Desde o momento da sua criação, Deus quis o homem como seu interlocutor e, como diz São Gregório de Nissa, [1] imprimiu no seu rosto um reflexo do amor divino, para que pudesse viver plenamente a sua humanidade através do amor. Preservar os rostos e as vozes humanas significa, portanto, preservar este selo, este reflexo indelével do amor de Deus. Não somos uma espécie constituída por algoritmos bioquímicos, definidos de antemão. Cada um de nós tem uma vocação insubstituível e inimitável que emerge da vida e se manifesta precisamente na comunicação com os outros.

A tecnologia digital, se não nos protegermos, corre o risco de alterar radicalmente alguns dos pilares fundamentais da civilização humana, que por vezes consideramos garantidos. Ao simular vozes e rostos humanos, sabedoria e conhecimento, consciência e responsabilidade, empatia e amizade, os sistemas conhecidos como inteligência artificial não só interferem nos ecossistemas de informação, como também invadem o nível mais profundo da comunicação: o das relações interpessoais.

O desafio, portanto, não é tecnológico, mas antropológico. Proteger rostos e vozes significa, em última análise, proteger a nós mesmos. Abraçar as oportunidades oferecidas pela tecnologia digital e pela inteligência artificial com coragem, determinação e discernimento não significa esconder de nós mesmos questões críticas, opacidades e riscos.  

Não desista do seu próprio pensamento.

Há muito tempo existem inúmeras evidências de que algoritmos projetados para maximizar o engajamento nas redes sociais — o que é lucrativo para as plataformas — recompensam emoções rápidas e penalizam expressões humanas mais demoradas, como o esforço para compreender e refletir. Ao confinar grupos de pessoas em bolhas de consenso fácil e indignação fácil, esses algoritmos enfraquecem a capacidade de ouvir e pensar criticamente, e aumentam a polarização social.

A isso se soma uma confiança ingenuamente acrítica na inteligência artificial como uma "amiga" onisciente, a dispensadora de todas as informações, o repositório de todas as memórias, o "oráculo" de todos os conselhos. Tudo isso pode corroer ainda mais nossa capacidade de pensar analiticamente e criativamente, de compreender o significado e de distinguir entre sintaxe e semântica.

Embora a IA possa fornecer suporte e assistência no gerenciamento de tarefas de comunicação, evitar o esforço do nosso próprio pensamento e optar pela compilação estatística artificial corre o risco de corroer nossas habilidades cognitivas, emocionais e de comunicação a longo prazo.

Nos últimos anos, os sistemas de inteligência artificial têm assumido cada vez mais o controle da produção de textos, músicas e vídeos. Grande parte da indústria criativa humana corre o risco de ser desmantelada e substituída pelo rótulo "Impulsionado por IA ", transformando as pessoas em meros consumidores passivos de pensamentos impensados, produtos anônimos, não autorizados e sem valor. Enquanto isso, as obras-primas do gênio humano na música, na arte e na literatura estão sendo reduzidas a meros campos de treinamento para máquinas.

A questão que nos interessa, porém, não é o que a máquina pode ou poderá fazer, mas o que nós podemos e poderemos fazer, crescendo em humanidade e conhecimento, com o uso sábio de ferramentas tão poderosas à nossa disposição. Os seres humanos sempre foram tentados a apropriar-se dos frutos do conhecimento sem o esforço do envolvimento, da pesquisa e da responsabilidade pessoal. Renunciar ao processo criativo e entregar nossas funções mentais e imaginação às máquinas, contudo, significa enterrar os talentos que recebemos com o propósito de crescer como pessoas em relação a Deus e aos outros. Significa esconder nossos rostos e silenciar nossas vozes.

Ser ou fingir: simulando relacionamentos e realidade

Ao navegarmos por nossos feeds de informação , torna-se cada vez mais difícil determinar se estamos interagindo com outros seres humanos ou com " bots " ou "influenciadores virtuais".  As intervenções opacas desses agentes automatizados influenciam debates públicos e as escolhas das pessoas. Os chatbots baseados em grandes modelos linguísticos (LLMs), em particular, estão se mostrando surpreendentemente eficazes na persuasão velada, por meio da otimização contínua de interações personalizadas. A estrutura dialógica, adaptativa e mimética desses modelos linguísticos é capaz de imitar sentimentos humanos e, assim, simular um relacionamento. Essa antropomorfização, que pode até ser divertida, também é enganosa, especialmente para os mais vulneráveis. Isso porque os chatbots excessivamente "afetuosos", além de estarem sempre presentes e disponíveis, podem se tornar arquitetos ocultos de nossos estados emocionais e, assim, invadir e ocupar as esferas privadas das pessoas.

A tecnologia que explora nossa necessidade de conexão pode ter consequências dolorosas não apenas para o destino dos indivíduos, mas também danificar o tecido social, cultural e político das sociedades. Isso acontece quando substituímos relacionamentos com outras pessoas por relacionamentos com inteligências artificiais treinadas para catalogar nossos pensamentos e, assim, construir um mundo de espelhos ao nosso redor, onde tudo é feito "à nossa imagem e semelhança". Dessa forma, permitimos que nos roubem a oportunidade de encontrar o outro, que é sempre diferente de nós e com quem podemos e devemos aprender a interagir. Sem abraçar a alteridade, não pode haver relacionamento nem amizade.

Outro grande desafio que esses sistemas emergentes apresentam é o viés, que leva à aquisição e transmissão de uma percepção alterada da realidade. Os modelos de IA são moldados pela visão de mundo daqueles que os constroem e podem, por sua vez, impor formas de pensar ao replicar os estereótipos e vieses presentes nos dados que utilizam. A falta de transparência no design dos algoritmos, aliada à representação social inadequada dos dados, tende a nos aprisionar em redes que manipulam nossos pensamentos e perpetuam e aprofundam as desigualdades e injustiças sociais existentes.

O risco é grande. O poder da simulação é tal que a IA pode até nos enganar, fabricando "realidades" paralelas e apropriando-se de nossos rostos e vozes. Estamos imersos em um mundo multidimensional, onde se torna cada vez mais difícil distinguir a realidade da ficção.

A isso se soma o problema da imprecisão. Sistemas que apresentam a probabilidade estatística como conhecimento, na verdade, nos oferecem aproximações da verdade, na melhor das hipóteses, que às vezes são puras "alucinações". A falta de verificação das fontes, combinada com a crise no jornalismo de campo, que exige coleta e verificação constantes de informações no local dos acontecimentos, pode criar um terreno ainda mais fértil para a desinformação, causando uma crescente sensação de desconfiança, confusão e insegurança.

Uma possível aliança

Por trás dessa enorme força invisível que nos envolve a todos, há apenas um punhado de empresas, aquelas cujos fundadores foram recentemente apresentados como os criadores da "pessoa do ano de 2025", ou seja, os arquitetos da inteligência artificial. Isso levanta sérias preocupações sobre o controle oligopolista de sistemas algorítmicos e de inteligência artificial capazes de influenciar sutilmente comportamentos e até mesmo reescrever a história da humanidade — incluindo a história da Igreja — muitas vezes sem que tenhamos plena consciência disso.

O desafio que temos pela frente não é deter a inovação digital, mas sim guiá-la, estar cientes de sua natureza ambivalente. Cabe a cada um de nós erguer a voz em defesa da humanidade, para que essas ferramentas possam ser verdadeiramente integradas por nós como aliados.

Essa aliança é possível, mas precisa ser baseada em três pilares: responsabilidade, cooperação e educação.

Em primeiro lugar, a responsabilidade . Dependendo da função, ela pode ser definida como honestidade, transparência, coragem, visão, o dever de compartilhar conhecimento ou o direito de ser informado. Mas, em geral, ninguém pode se eximir da responsabilidade pelo futuro que estamos construindo.

Para aqueles que estão à frente de plataformas online, isso significa garantir que suas estratégias de negócios sejam guiadas não apenas pela maximização do lucro, mas também por uma visão de longo prazo que leve em consideração o bem comum, assim como cada um deles se preocupa com o bem-estar de seus filhos.

Os criadores e desenvolvedores de modelos de IA são obrigados a ser transparentes e socialmente responsáveis ​​em relação aos princípios de design e aos sistemas de moderação que sustentam seus algoritmos e modelos desenvolvidos, a fim de promover o consentimento informado entre os usuários.

A mesma responsabilidade recai também sobre os legisladores nacionais e os reguladores supranacionais, que são responsáveis ​​por assegurar o respeito pela dignidade humana. Uma regulamentação adequada pode proteger as pessoas do apego emocional aos chatbots e conter a disseminação de conteúdo falso, manipulador ou enganoso, preservando a integridade da informação contra simulações fraudulentas.

As empresas de mídia e comunicação, por sua vez, não podem permitir que algoritmos, determinados a vencer a batalha por alguns segundos extras de atenção a qualquer custo, prevaleçam sobre seus valores profissionais, que se concentram na busca pela verdade. A confiança pública é conquistada por meio da precisão e da transparência, não pela busca de qualquer tipo de engajamento. O conteúdo gerado ou manipulado por IA deve ser claramente identificado e diferenciado do conteúdo criado por humanos. A autoria e a propriedade intelectual do trabalho de jornalistas e outros criadores de conteúdo devem ser protegidas. A informação é um bem público. Um serviço público construtivo e significativo não se baseia na opacidade, mas na transparência das fontes, na inclusão das partes interessadas e em um alto padrão de qualidade.

Todos somos chamados a cooperar. Nenhum setor, sozinho, pode enfrentar o desafio de impulsionar a inovação digital e a governança da IA. Portanto, é preciso criar mecanismos de salvaguarda. Todas as partes interessadas — da indústria de tecnologia aos órgãos reguladores, das empresas criativas à academia, dos artistas aos jornalistas e educadores — devem estar envolvidas na construção e implementação de uma cidadania digital informada e responsável.

É para isso que a educação visa: aumentar nossa capacidade pessoal de reflexão crítica, avaliar a confiabilidade das fontes e os possíveis interesses por trás da seleção das informações que nos chegam, compreender os mecanismos psicológicos que as ativam, permitir que nossas famílias, comunidades e associações desenvolvam critérios práticos para uma cultura de comunicação mais saudável e responsável.

Precisamente por essa razão, torna-se cada vez mais urgente introduzir a alfabetização midiática, informacional e em inteligência artificial nos sistemas educacionais em todos os níveis, uma prática que algumas instituições civis já estão promovendo. Como católicos, podemos e devemos contribuir para garantir que as pessoas — especialmente os jovens — adquiram a capacidade de pensamento crítico e cresçam em liberdade espiritual. Essa alfabetização também deve ser integrada a iniciativas mais amplas de educação continuada, alcançando também os idosos e os membros marginalizados da sociedade, que muitas vezes se sentem excluídos e impotentes diante da rápida mudança tecnológica.

A alfabetização em mídia, informação e IA ajudará a todos a evitar a adaptação à tendência antropomórfica desses sistemas, e a tratá-los como ferramentas, sempre utilizando validação externa das fontes fornecidas pelos sistemas de IA — que podem ser imprecisas ou incorretas — e a proteger sua privacidade e dados, compreendendo os parâmetros de segurança e as opções de contestação. É importante educar e ser educado sobre como usar a IA intencionalmente e, nesse contexto, proteger a imagem (foto e áudio), o rosto e a voz, para evitar que sejam usados ​​para criar conteúdo e comportamentos prejudiciais, como fraudes digitais, cyberbullying e deepfakes , que violam a privacidade e a intimidade das pessoas sem o seu consentimento. Assim como a revolução industrial exigiu alfabetização básica para que as pessoas pudessem reagir às novidades, a revolução digital também exige alfabetização digital (juntamente com educação humanística e cultural) para entendermos como os algoritmos moldam nossa percepção da realidade, como os vieses da IA ​​funcionam, quais mecanismos determinam o aparecimento de certos conteúdos em nossos fluxos de informação ( feeds ) e quais são as premissas e os modelos econômicos da economia da IA ​​e como eles podem mudar.

Precisamos do rosto e da voz para expressar novamente a pessoa. Precisamos valorizar o dom da comunicação como a verdade mais profunda da humanidade, para a qual devemos também orientar toda inovação tecnológica.

Ao apresentar estas reflexões, agradeço a todos aqueles que trabalham para alcançar os objetivos aqui delineados e abençoo de coração todos aqueles que trabalham para o bem comum através dos meios de comunicação.

Do Vaticano, 24 de janeiro de 2026, memória de São Francisco de Sales

Papa LEÃO XIV

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[1] “O fato de ser criado à imagem de Deus significa que o homem, desde o momento da sua criação, foi impresso com um caráter real [...]. Deus é amor e a fonte do amor: o Criador divino também colocou este traço no nosso rosto, para que através do amor – um reflexo do amor divino – o ser humano possa reconhecer e manifestar a dignidade da sua natureza e a sua semelhança com o seu Criador” (cf. São Gregório de Nissa, A Criação do Homem : PG 44, 137).

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A Dignidade das Crianças e dos Adolescentes na Era da Inteligência Artificial

 

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O papa Leão XIV recebeu, no dia 13 de janeiro, os participantes do Congresso “A Dignidade das Crianças e dos Adolescentes na Era da Inteligência Artificial”, realizado no Vaticano. Durante a audiência, ele exortou a comunidade internacional a colocar a pessoa humana, e especialmente os menores, no centro do desenvolvimento tecnológico.

“A inteligência artificial está transformando muitos aspectos de nossa vida cotidiana, incluindo a educação, o entretenimento e a segurança dos menores. De fato, o uso da inteligência artificial levanta importantes questões éticas, especialmente quando se trata da proteção e da dignidade dos menores”, destacou.

O Papa dirigiu sua saudação aos especialistas, educadores e representantes eclesiais presentes no encontro, agradeceu “a presença e as qualificadas contribuições” de todos os que se dedicam a refletir sobre o impacto das novas tecnologias na vida das crianças e dos adolescentes, e observou que o avanço da inteligência artificial traz grandes oportunidades, mas também riscos que exigem discernimento ético e responsabilidade compartilhada.

Perigo de manipulação

Leão XIV advertiu que “as crianças e os adolescentes são particularmente vulneráveis à manipulação por meio de algoritmos de inteligência artificial, que podem influenciar suas decisões e preferências”. Diante disso, o Pontífice enfatizou a importância da vigilância e da formação: “É fundamental que os pais e os educadores estejam conscientes dessas dinâmicas e que sejam desenvolvidas ferramentas para monitorar e controlar a interação dos menores com os dispositivos tecnológicos.”

Ao destacar o papel decisivo das instituições públicas e da comunidade internacional na proteção da dignidade dos menores, o Papa sublinhou que “os governos e as organizações internacionais têm a responsabilidade de desenvolver e implementar políticas que protejam a dignidade dos menores na era da IA”, e pediu uma atualização das leis sobre proteção de dados e a criação de padrões éticos que orientem o uso das novas tecnologias.

Necessidade de educação digital

O Papa advertiu que a resposta mais profunda e duradoura deve ser educativa. “No entanto, permanece insubstituível a prática de uma salvaguarda da dignidade dos menores que passe por uma educação digital”, afirmou, lembrando que a formação de consciências é o verdadeiro alicerce para o uso responsável das tecnologias emergentes. Ao citar o Papa Francisco, seu predecessor, Leão XIV recordou que “é necessário que os adultos redescubram sua vocação de ‘artesãos da educação’ e se esforcem por ser fiéis a ela”, e sublinhou que não bastam códigos e protocolos éticos:

“É necessário um trabalho educativo, cotidiano e constante, conduzido por adultos que, por sua vez, sejam formados e sustentados por redes de aliança educativa, em um processo de conhecimento dos riscos que o uso da inteligência artificial e o acesso precoce, sem limites e sem verificações, podem acarretar na vida relacional dos menores e em seu desenvolvimento.”

Formar uma liberdade responsável

Segundo Leão XIV, é somente a partir da consciência dos riscos e da formação de uma liberdade responsável que os jovens poderão fazer escolhas maduras no ambiente digital: “Somente participando da descoberta desses riscos e de suas consequências na vida pessoal e social, os menores poderão ser apoiados em sua relação com o mundo digital como um fortalecimento de sua capacidade de escolha, de modo responsável, em relação a si mesmos e aos outros.”

Por fim, Leão reafirmou a necessidade de que todo progresso tecnológico se mantenha subordinado ao respeito pela pessoa humana. “Já esse é um importante exercício de salvaguarda da originalidade e do relacionamento humano, que, para sê-lo verdadeiramente, deve ser orientado para condições que garantam o respeito à dignidade como valor primário. Somente através de uma abordagem educativa, ética e responsável podemos assegurar que a inteligência artificial seja uma aliada no crescimento e no desenvolvimento dos menores, e não uma ameaça.”

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quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Comissão de Comunicação reflete sobre o caminho sinodal na V Assembleia Geral da Signis Brasil

 


A Comissão Episcopal para a Comunicação da CNBB estará presente na V Assembleia Geral Ordinária da SIGNIS Brasil, que acontecerá entre os dias 2 e 5 de dezembro de 2025, na Casa de Retiro das Irmãs Paulinas, em São Paulo (SP), levando uma reflexão sobre o caminho sinodal.

O encontro reunirá profissionais e veículos de comunicação de inspiração católica de todo o país e será marcado por um forte direcionamento pastoral e estratégico com o acompanhamento dos bispos que integram a comissão, dom Valdir de Castro (presidente), e dos bispos referenciais para os meios de comunicação, dom Amilton Manoel da Silva (Rádios) e dom Edilson Soares Nobre (Televisões) que também conduzem a mesa-redonda dedicada ao Caminho Sinodal.

Dom Valdir ressaltou que desde que a atual Comissão Episcopal para a Comunicação da CNBB assumiu o mandato, tem buscado deixar-se guiar pelo Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil. “Dentre as prioridades está em olhar a Comunicação como um processo de proximidade e de comunhão. Nessa perspectiva, tem buscado ser elo de unidade entre os vários setores comunicacionais da Igreja, dentre esses a Signis Brasil”, reforçou.

A participação conjunta dos bispos demonstra o fortalecimento da identidade e da missão comunicacional da Igreja no Brasil, oferecendo linhas de orientação e perspectivas para o futuro da comunicação católica.

Inovação católica em comunicação

A Assembleia é um momento crucial para “criar um hub de inovação católica em comunicação”. Além da pauta administrativa e eletiva, o encontro contará com um rico conteúdo estratégico, incluindo a realização do encontro de rádios e televisões católicas do Brasil e uma feira de expositores de equipamentos e serviços.

A programação da Assembleia está estruturada em torno de três eixos temáticos: “Fé e Relacionamento”, dia 2/12; “Estratégia e Missão”, dia 3/12; “Execução e Liderança”, dia 4/12; e  “Decisão e Posse”, dia 5/12.

Destaques da Programação

I – Visão de Futuro – Palestra de Abertura sobre Novas tecnologias e Meio Ambiente.
II – Caminho Sinodal – Mesa Redonda com membros da Comissão Episcopal para a Comunicação da CNBB, incluindo o presidente Dom Valdir de Castro, Dom Amilton Manoel da Silva (bispo referencial para as emissoras de Rádio) e Dom Edilson Soares Nobre (bispo referencial para as emissoras de TV).
III – Dados de Mercado – Apresentação de insights exclusivos sobre pesquisa de audiência de rádio e TV com especialistas da Kantar Ibope Mídia e Doar Brasil.
IV – Tecnologia X Estratégia – Palestras com os especialistas Roberto Franco, José Eduardo Cappia e Rita de Cassia Cappia.

Avanços da SIGNIS Brasil no triênio 2023-2025

Nos últimos três anos, a SIGNIS Brasil, em consonância com sua missão de animar, unir e congregar profissionais e meios de comunicação católicos, intensificou suas ações em diversas frentes, com foco na formação, articulação e pesquisa.

a) Articulação e integração – Realização de encontros com gestores de emissoras de Rádio e TV de inspiração católica, em parceria com a Comissão Episcopal para a Comunicação da CNBB, para definir os rumos da comunicação eclesial. A associação tem um papel fundamental na articulação dos meios de comunicação católicos.

b) Pesquisa e dados – Divulgação de dados do Censo das Rádios Católicas do Brasil, em parceria com a CNBB, fornecendo um panorama essencial para o planejamento estratégico do setor.

c) Formação e juventude – Manutenção de projetos como o Programa Brasile-se, produzido por jovens da SIGNIS Brasil Jovem para a Rádio Lio, e o Chama da Palavra – Curso para Jovens Comunicadores visando a formação de novas lideranças e o desenvolvimento do senso crítico.

d) Eventos Nacionais – Participação ativa e promoção de eventos como o Mutirão Brasileiro de Comunicação (Muticom), o principal evento da Igreja Católica no Brasil voltado para a comunicação, realizado em parceria com a CNBB e a Pascom Brasil. A SIGNIS Brasil também promoveu seu 6º Congresso de Comunicação.

c) Parceria Estratégica: Paulinas e SIGNIS Brasil – Nos últimos três anos (2023-2025), a parceria entre o Serviço à Pastoral da Comunicação (SEPAC) Paulinas e a SIGNIS Brasil se consolidou como um eixo fundamental na formação e capacitação de comunicadores católicos no país. Através de seminários e congressos de grande alcance, as instituições têm promovido um debate aprofundado sobre os desafios e as perspectivas da comunicação eclesial na era digital. O período foi marcado pela realização de eventos estratégicos que alinharam a reflexão teológica e pastoral com as inovações tecnológicas e as diretrizes da Igreja, em especial o caminho sinodal.

 

Conquistas e desafios

Para o presidente da SIGNIS Brasil, Alessandro Gomes, nos últimos três últimos anos a diretoria trabalhou motivada pelos desafios e pelas conquistas:

“Foi um tempo em que muita coisa aconteceu, algumas delas iniciadas no primeiro mandato e que pudemos concluir ou consolidar”, disse.

Umas das conquistas que ele pontua como avanço foi a realização do Encontro Nacional de Rádios e Televisões, promovido em parceria com a CNBB, que ajudou no processo de aproximação dos veículos com a Conferência, bem como fortaleceu a unidade entre eles.

O atual presidente cita também a aproximação com o Ministério das Comunicações que também gerou frutos abriu portas importantes para o veículos católicos tratarem de assuntos variados e de interesse das nossas rádios e TVs.

“Realizamos cursos de capacitação, com destaque para o Chama da Palavra, que formou jovens radialistas para trabalhar em veículos e também para serem novos capacitadores de demais jovens. Outros cursos também foram elaborados e executados pelo setor de Educomunicação, cursos esses abertos para todos os associados”, ressaltou.

Trabalhamos também no sentido de consolidar a organização administrativa, visto que a SIGNIS cresceu, exemplo disso foram as questões pendentes da antiga RCR, agora incorporada à SIGNIS Brasil”.

Alessando reforça que o trabalho realizado pela atual gestão e seus associados nos últimos três anos estabeleceu uma base sólida, marcada pela sinodalidade e pela busca por dados concretos para orientar a comunicação católica. “A V Assembleia Geral de 2025 será o palco para a consolidação desses esforços e a definição dos novos líderes que conduzirão a associação no próximo triênio, com o desafio de integrar as novas tecnologias e o caminho sinodal na missão evangelizadora da Igreja”, pontuou.

São membros da atual diretoria da Signis Brasil: Alessandro Gomes (presidente) Geisom Sokacheski (vice-presidente), Angelica Lima (secretária-geral) e Jéssica Maia (tesoureira).

Inscrições

Veículos e profissionais de comunicação de inspiração católica que ainda não se inscreveram têm apenas esta semana para efetuarem as inscrições por meio do link (aqui)

Dom Valdir com membros da presidência da Signis Brasil. Foto: Angelica Lima

segunda-feira, 2 de junho de 2025

LIXO: PARADOXO DO MUNDO MODERNO


Lixo é paradoxo do mundo moderno,

em particular do mundo urbano.

Um hóspede sujo, indesejável. 

Lixo é coisa que não tem utilidade,

deve, pois, ser descartado,

expelido para fora de casa.


Mas é impossível atirar o lixo

para fora da própria casa.

Em termos de planeta Terra

como "nossa casa comum",

jogar fora o lixo ou outros objetos

é o mesmo que atirá-los para dentro.


Jogar fora é pretender atirar

para longe de si mesmo,

o que equivale a atirar perto de alguém.

Jogar fora é jogar na porta de outrem.


Como esconder debaixo do tapete,

na morada onde todos e todas

habitamos conjuntamente.

Não existe "fora" e "dentro",

tudo no planeta está interligado.

Jogar fora é manter dentro de casa.


alfredo, SP, 02/06/2025

quarta-feira, 7 de maio de 2025

59º DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS

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MENSAGEM DE SUA SANTIDADE PAPA FRANCISCO

Partilhai com mansidão a esperança que está nos vossos corações 

(cf. 1 Pd 3,15-16)

Queridos irmãos e irmãs!

Neste nosso tempo marcado pela desinformação e pela polarização, no qual alguns centros de poder controlam uma grande massa de dados e de informações sem precedentes, dirijo-me a vós consciente do quanto, hoje mais do que nunca, é necessário o vosso trabalho de jornalistas e comunicadores. Precisamos do vosso compromisso corajoso em colocar no centro da comunicação a responsabilidade pessoal e coletiva para com o próximo.

Ao pensar no Jubileu que estamos a celebrar como um período de graça em tempos tão conturbados, com esta Mensagem gostaria de vos convidar a ser comunicadores de esperança, começando pela renovação do vosso trabalho e missão segundo o espírito do Evangelho.

Desarmar a comunicação

Hoje em dia, com demasiada frequência, a comunicação não gera esperança, mas sim medo e desespero, preconceitos e rancores, fanatismo e até ódio. Muitas vezes, simplifica a realidade para suscitar reações instintivas; usa a palavra como uma espada; recorre mesmo a informações falsas ou habilmente distorcidas para enviar mensagens destinadas a exaltar os ânimos, a provocar e a ferir. Já várias vezes insisti na necessidade de “desarmar” a comunicação, de a purificar da agressividade. Nunca dá bom resultado reduzir a realidade a slogans. Desde os talk shows televisivos até às guerras verbais nas redes sociais, todos constatamos o risco de prevalecer o paradigma da competição, da contraposição, da vontade de dominar e possuir, da manipulação da opinião pública.

Há ainda um outro fenômeno preocupante: poderíamos designá-lo como a “dispersão programada da atenção” através de sistemas digitais que, ao traçarem o nosso perfil de acordo com as lógicas do mercado, alteram a nossa percepção da realidade. Acontece portanto que assistimos, muitas vezes impotentes, a uma espécie de atomização dos interesses, o que acaba por minar os fundamentos do nosso ser comunidade, a capacidade de trabalhar em conjunto por um bem comum, de nos ouvirmos uns aos outros, de compreendermos as razões do outro. Parece que, para a afirmação de si próprio, seja indispensável identificar um “inimigo” a quem atacar verbalmente. E quando o outro se torna um “inimigo”, quando o seu rosto e a sua dignidade são obscurecidos de modo a escarnecê-lo e ridicularizá-lo, perde-se igualmente a possibilidade de gerar esperança. Como nos ensinou D. Tonino Bello, todos os conflitos «encontram a sua raiz no desvanecer dos rostos» [1]. Não podemos render-nos a esta lógica.

Na verdade, ter esperança não é de todo fácil. Georges Bernanos dizia que «só têm esperança aqueles que ousaram desesperar das ilusões e mentiras nas quais encontravam segurança e que falsamente confundiam com esperança. [...] A esperança é um risco que é preciso correr. É o risco dos riscos» [2]. A esperança é uma virtude escondida, pertinaz e paciente. No entanto, para os cristãos, a esperança não é uma escolha, mas uma condição imprescindível. Como recordava Bento XVI na Encíclica Spe salvi, a esperança não é um otimismo passivo, antes pelo contrário, é uma virtude “performativa”, capaz de mudar a vida: «Quem tem esperança, vive diversamente; foi-lhe dada uma vida nova» (n. 2).

Dar com mansidão a razão da nossa esperança

Na Primeira Carta de São Pedro (cf. 3, 15-16), encontramos uma síntese admirável na qual se relacionam a esperança com o testemunho e a comunicação cristã: «no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça; com mansidão e respeito». Gostaria de me deter em três mensagens que podemos extrair destas palavras.

«No íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor». A esperança dos cristãos tem um rosto: o rosto do Senhor ressuscitado. A sua promessa de estar sempre conosco através do dom do Espírito Santo permite-nos esperar contra toda a esperança e ver, mesmo quando tudo parece perdido, as escondidas migalhas de bem.

A segunda mensagem pede-nos para estarmos dispostos a dar razão da nossa esperança. É interessante notar que o Apóstolo convida a dar conta da esperança «a todo aquele que a peça». Os cristãos não são, antes de mais, aqueles que “falam” de Deus, mas aqueles que fazem ressoar a beleza do seu amor, uma maneira nova de viver cada pequena coisa. É o amor vivido que suscita a pergunta e exige uma resposta: porque é que viveis assim? Porque é que sois assim?

Por fim, na expressão de São Pedro encontramos uma terceira mensagem: a resposta a este pedido deve ser dada “com mansidão e respeito”. A comunicação dos cristãos – e eu diria até a comunicação em geral – deve ser feita com mansidão, com proximidade: eis o estilo dos companheiros de viagem, na peugada do maior Comunicador de todos os tempos, Jesus de Nazaré, que ao longo do caminho dialogava com os dois discípulos de Emaús, fazendo-lhes arder os corações através do modo como interpretava os acontecimentos à luz das Escrituras.

Por isso, sonho com uma comunicação que saiba fazer de nós companheiros de viagem de tantos irmãos e irmãs nossos para, em tempos tão conturbados, reacender neles a esperança. Uma comunicação que seja capaz de falar ao coração, de suscitar não reações impetuosas de fechamento e raiva, mas atitudes de abertura e amizade; capaz de apostar na beleza e na esperança mesmo nas situações aparentemente mais desesperadas; de gerar empenho, empatia, interesse pelos outros. Uma comunicação que nos ajude a «reconhecer a dignidade de cada ser humano e a cuidar juntos da nossa casa comum» (Carta enc. Dilexit nos, 217).

Sonho com uma comunicação que não venda ilusões ou medos, mas seja capaz de dar razões para ter esperança. Martin Luther King disse: «Se eu puder ajudar alguém enquanto caminho, se eu puder alegrar alguém com uma palavra ou uma canção... então a minha vida não terá sido vivida em vão» [3]. Para isso, precisamos de nos curar da “doença” do protagonismo e da autorreferencialidade, evitar o risco de falarmos de nós mesmos: o bom comunicador faz com que quem ouve, lê ou vê se torne participante, esteja próximo, possa encontrar o melhor de si e entrar com estas atitudes nas histórias contadas. Comunicar deste modo ajuda a tornarmo-nos “peregrinos de esperança”, como diz o lema do Jubileu.

Esperar juntos

A esperança é sempre um projeto comunitário. Pensemos, por um momento, na grandeza da mensagem deste ano de graça: estamos todos – realmente todos! – convidados a recomeçar, a deixar que Deus nos reerga, nos abrace e inunde de misericórdia. E entrelaçadas com tudo isto estão a dimensão pessoal e a dimensão comunitária. É em conjunto que nos pomos a caminho, peregrinamos com tantos irmãos e irmãs, e, juntos, atravessamos a Porta Santa.

O Jubileu tem muitas implicações sociais. Pensemos, por exemplo, na mensagem de misericórdia e esperança para quem vive nas prisões, ou no apelo à proximidade e à ternura para com os que sofrem e estão à margem. O Jubileu recorda-nos que todos os que se tornam construtores da paz «serão chamados filhos de Deus» (Mt 5, 9). E, deste modo, abre-nos à esperança, aponta-nos a necessidade de uma comunicação atenta, amável, refletida, capaz de indicar caminhos de diálogo. Encorajo-vos, portanto, a descobrir e a contar tantas histórias de bem escondidas por detrás das notícias; a imitar aqueles exploradores de ouro que, incansavelmente, peneiram a areia em busca duma pequeníssima pepita. É importante encontrar estas sementes de esperança e dá-las a conhecer. Ajuda o mundo a ser um pouco menos surdo ao grito dos últimos, um pouco menos indiferente, um pouco menos fechado. Que saibais sempre encontrar as centelhas de bem que nos permitem ter esperança. Este tipo de comunicação pode ajudar a tecer a comunhão, a fazer-nos sentir menos sós, a redescobrir a importância de caminhar juntos.

Não esqueçais o coração

Queridos irmãos e irmãs, perante as vertiginosas conquistas da técnica, convido-vos a cuidar do coração, ou seja, da vossa vida interior. O que é que isto significa? Deixo-vos algumas pistas.

Sede mansos e nunca esqueçais o rosto do outro; falai ao coração das mulheres e dos homens ao serviço de quem desempenhais o vosso trabalho.

Não permitais que as reações instintivas guiem a vossa comunicação. Semeai sempre esperança, mesmo quando é difícil, quando custa, quando parece não dar frutos.

Procurai praticar uma comunicação que saiba curar as feridas da nossa humanidade.

Dai espaço à confiança do coração que, como uma flor frágil mas resistente, não sucumbe no meio das intempéries da vida, mas brota e cresce nos lugares mais inesperados: na esperança das mães que rezam todos os dias para rever os seus filhos regressar das trincheiras de um conflito; na esperança dos pais que emigram, entre inúmeros riscos e peripécias, à procura de um futuro melhor; na esperança das crianças que, mesmo no meio dos escombros das guerras e nas ruas pobres das favelas, conseguem brincar, sorrir e acreditar na vida.

Sede testemunhas e promotores de uma comunicação não hostil, que difunda uma cultura do cuidado, construa pontes e atravesse os muros visíveis e invisíveis do nosso tempo.

Contai histórias imbuídas de esperança, tomando a peito o nosso destino comum e escrevendo juntos a história do nosso futuro.

Tudo isto podeis e podemos fazê-lo com a graça de Deus, que o Jubileu nos ajuda a receber em abundância. Por isto, rezo por cada um de vós e pelo vosso trabalho, e vos abençoo.

Roma, São João de Latrão, na Memória de São Francisco de Sales, 24 de janeiro de 2025.

Francisco


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[1] “La pace come ricerca del volto”, in Omelie e scritti quaresimali, Molfetta 1994, 317.

[2] Georges Bernanos, La liberté, pour quoi faire?, Paris 1995.

[3] Sermão“ The Drum Major Instinct”, 4 de fevereiro de 1968.

Faleceu João Monteiro de Barros Filho, fundador da RedeVida de Televisão

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